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Auctoritas & potestas

 


    Quando falamos em autoridade na educação, vale começar pelo vocabulário clássico. Os romanos distinguiam auctoritas e potestas. Potestas é o poder que deriva da posição, da hierarquia, do comando: é o poder que obriga. Auctoritas é outra coisa: é o reconhecimento de alguém cuja presença é capaz de fazer crescer, sustentar, legitimar. A boa didática nos ensina que a aula não precisa de gritos para funcionar, quando existe a auctoritas. Ela acontece porque os estudantes reconhecem naquela figura alguém que vale a pena escutar. É o que a Pedagogia chama de domínio de classe.

A autoridade de um professor brota dos olhos... e vem de dentro.

    Na escola contemporânea, diferenciar autoridade e poder, é fundamental. Autoridade pedagógica é da ordem da auctoritas: ela se afirma na relação, no exemplo, na confiança. Ela não humilha, não subjuga e não substitui a liberdade do estudante. Ao contrário, a autoridade pedagógica é aquela que ajuda a liberdade a nascer. É uma autoridade que acompanha, que situa, que oferece referências e sentido. Paulo Freire dizia que não existe educação sem autoridade, mas também não existe educação sem liberdade, e a arte do educador é equilibrar essas duas forças.

    Já a autoridade disciplinar, frequentemente confundida com a pedagógica, é a forma mais estreita da potestas. Ela aparece quando o foco da escola se desloca da formação para o controle. Nesse modelo, o problema não é a existência de regras — toda comunidade precisa delas — mas a sua finalidade. A disciplina como cuidado é diferente da disciplina como adestramento. Quando a disciplina vira fim em si mesma, ela sufoca a experiência educativa.


Escolas cívico-militares

    É nesse contexto que entram as chamadas escolas cívico-militares. A presença de militares na gestão cotidiana da vida escolar expressa uma inversão conceitual: substitui-se auctoritas por potestas. A relação educativa perde o seu caráter dialógico e passa a imitar estruturas hierárquicas próprias de instituições orientadas para obediência, não para formação humanística. Um militar pode ser um excelente educador em outros contextos, mas...


A lógica militar, que é de comando, prontidão, ordem e disciplina, não é a lógica da escola, que é de escuta, elaboração, tempo, conflito interpretativo e construção do comum.


    Quando militares são colocados na função de conduzir processos educativos, ocorre um desencontro ontológico: o profissional está no lugar errado, com a função errada, aplicando um método que não foi feito para formar cidadãos, mas para organizar corpos e cumprir ordens. O resultado costuma ser o empobrecimento da vida escolar: menos debate, menos pertencimento, mais medo e silêncio.

    A reconstrução da autoridade pedagógica no século XXI passa, por um outro caminho. É preciso:

recompor o sentido da presença do professor, lembrando que a autoridade se ganha na relação, não se impõe por decreto;

fortalecer vínculos, e não mecanismos de vigilância;

compreender a escola como espaço de convivência democrática, e não como quartel;

formar educadores para a escuta, a mediação, o conflito produtivo e a construção de sentido;

explicitar que a disciplina pode ser um ato de cuidado, desde que esteja a serviço do crescimento do estudante, e não da docilização.

    A verdadeira autoridade pedagógica não é o poder de calar, mas o poder de abrir: abrir a possibilidade de pensar, de dizer, de perguntar, de existir no mundo com responsabilidade. É isso que sustenta uma escola viva.

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